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Queria Ver Você Feliz - Adriana Falcão

Foto: Let It Bela
Autor: Adriana Falcão
Editora: Intrínseca
Ano: 2014
Páginas: 160

Há quem o chame de Eros, Kama, Philea ou Ahava. O Amor, esse personagem mítico, desempenha o papel de narrador na história real do casal Caio e Maria Augusta, pais da autora Adriana Falcão. O Amor se descreve como perfeccionista e obcecado pelos detalhes, nada que o impeça de ser um bocado descuidado com as consequências dos sentimentos que provoca com suas flechas. Assim, com uma linguagem poética e ao mesmo tempo muito bem-humorada, Adriana revela para seus leitores aquilo que poderia ser descrito como uma história trágica protagonizada por dois personagens atormentados por seus demônios. Apaixonados, Caio e Maria Augusta se casam no Rio de Janeiro da década de 1950 e têm três filhas. Todo o sentimento que eles compartilham não impede que a personalidade exuberante de Maria Augusta se torne mais obsessiva e asfixiante com o passar do tempo, apesar dos medicamentos e dos tratamentos psiquiátricos. Caio, por sua vez, aprofunda uma melancolia que existia nele desde a adolescência, e que culmina nos anos 1970 em tentativas de suicídio. Mais do que uma história com um final dramático, trata-se de memórias afetivas que alternam momentos de intensa felicidade e outros tantos de dor, como acontece nas melhores famílias

Queria ver você feliz foi uma leitura diferente e surpreendente, já que inicialmente eu não dava nada para essa leitura. Apesar de pertencer ao gênero não-ficção, por retratar a história da família Falcão (lembrou da Clarice? Pois é.), esta obra possui uma escrita perceptivelmente romanceada. Nela, conhecemos a história de amor e obsessão de Caio e Maria Augusta, pais da autora. Adriana, porém, em nenhum momento se coloca na posição de quem conta os momentos vividos pelo casal. O narrador é ninguém menos que o Amor, que logo no início avisa:
"Faz parte da minha natureza transgredir, invadir, violar. Não me interessa desimpedir impedimentos, não necessito de acordos, não me aprazem os “a contento”, não sou de pedir licença, não estou nem aí para sorrisos hospitaleiros, não me venham com xícaras de chá. Estou, sim, belicosamente plantado no meio de olhos que não se devem olhar, corpos interditos, condições incompatíveis, atos ilícitos, corações desautorizados".
Apresentações feitas, o Amor inicia sua descrição dos fatos. Era maio de 1947 quando Maria Augusta, então com 14 anos, e Caio, 15 anos, se conheceram. O romance não demorou a começar, apesar da não aprovação da mãe de Maria Augusta. Desde essa época, a menina já demonstrava possuir traços obsessivos e exigia a presença constante do namorado que, por sua vez, era extremamente ciumento. Para alegria de nosso ilustre narrador, que adora um empecilho para se tornar ainda mais forte, Maria Augusta é obrigada pela mãe a passar as férias na casa de parentes em outro estado. Cartas e mais cartas são enviadas por ela quase que diariamente, declarando seu amor e sua saudade. Se Caio não escrevesse com a mesma frequência ou esquecesse de usar formas de tratamento carinhosas, a menina sofria, chorava e escrevia reclamando. O livro traz as cartas trocadas por eles e, mesmo não sendo o destinatário daquelas palavras, é possível para o leitor sentir o amor sufocante de Maria Augusta, e mais ainda, o jeito provocador de Caio.

Alguns anos depois vieram o casamento e as filhas. Foi, sem dúvida, a fase mais difícil para o casal. Crises, remédios e tratamentos psiquiátricos passaram a fazer parte da rotina da família. Toda a carga dramática da história é contrabalanceada com a narração do Amor. Muitas de suas colocações são bonitas, quase poéticas, daquele tipo que a gente marca para nunca esquecer; outras são divertidas, sarcásticas até. Sem dúvida a escolha por esse estilo de narrativa contribuiu para tornar a história muito mais interessante de se ler.
"Se tem uma coisa que me encanta é acompanhar os momentos de virada na vida das pessoas. Uma decisão, uma desistência, um desvio, uma pergunta, um silêncio, e de repente uma possibilidade de futuro desmorona e uma outra aparece, inesperadamente. Muitas vezes as pessoas nem percebem na hora que aquela hora é decisiva. Quando vêm enxergar isso, já tomaram um caminho que pode terminar em arrependimento, ou em alívio. Penso que se fosse dado aos humanos o direito de voltar atrás e mudar algum ponto da trajetória, talvez eles passassem a eternidade para trás e para a frente e suas histórias não terminassem nunca. Nem todo mundo consegue identificar em que ponto, exatamente, este ou aquele rumo se traçou. Mas eu consigo".
Recheado de cartas, bilhetes e fotos, Queria Ver Você Feliz é um livro sobre o amor. O amor que tudo tolera, que tudo suporta, que vence quase qualquer coisa. É bonito e ao mesmo tempo angustiante acompanhar a trajetória do casal, intensa desde o início. Tentar rotular a relação como doentia ou enquadrar cada um em uma entidade nosológica é quase irresistível. Mas, contrariando qualquer tentativa de intelectualização, a explicação do nosso narrador (e, quem sabe, da autora) é uma só e bem simples: amor demais. Fiquemos com ela. Apesar de que o sentimento causado por uma obsessão doentia permeia o leitor à cada página, nos fazendo questionar até que ponto o amor pode servir como justificativa.
"Amar subentende agir: praticar, lutar, se dedicar, se lançar, se envolver, cuidar, conceber, compreender, construir. Subentende, ainda, se for o caso, se abster de algumas coisas em função de outras. Ou apenas ter paciência. Não agir também é uma forma de agir, não fui eu quem formulou esse pensamento, foi um filósofo por aí. Agindo ou não agindo é preciso muita capacidade, altruísmo, liberdade, nobreza e, ao menos, um pouquinho de loucura para amar de verdade. Nem todo mundo sabe amar de verdade. Eu me recuso a me entregar de verdade a qualquer um sem prévia seleção. Sempre escolho aqueles que têm algum mérito."

A Revolução dos Bichos - George Orwell

Foto: Vuou
Autor: George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2007
Páginas: 152

Verdadeiro clássico moderno, concebido por um dos mais influentes escritores do século 20, "A Revolução dos Bichos" é uma fábula sobre o poder. Narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. Progressivamente, porém, a revolução degenera numa tirania ainda mais opressiva que a dos humanos. Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. De fato, são claras as referências: o despótico Napoleão seria Stálin, o banido Bola-de-Neve seria Trotsky, e os eventos políticos - expurgos, instituição de um estado policial, deturpação tendenciosa da História - mimetizam os que estavam em curso na União Soviética. Com o acirramento da Guerra Fria, as mesmas razões que causaram constrangimento na época de sua publicação levaram A Revolução Dos Bichos a ser amplamente usada pelo Ocidente nas décadas seguintes como arma ideológica contra o comunismo. O próprio Orwell, adepto do socialismo e inimigo de qualquer forma de manipulação política, sentiu-se incomodado com a utilização de sua fábula como panfleto.

Nesse meu primeiro contato com o autor, em uma fábula - história fictícia que tem como objetivo nos ensinar algo - tive uma experiência ótima, que só não foi mais surpreendente pois já havia assistido ao filme. Mas isso não me impediu de notar nos pequenos detalhes, o quanto Orwell foi inteligente em sua obra.

A narrativa se inicia quando começa a espalhar-se o burburinho de que velho Major, o porco mais experiente e respeitado da Granja do Solar, havia tido um sonho estranho e queria contá-los numa reunião, após Jones, dono da granja, ter se embriagado e ido dormir. Assim se fez e, no horário combinado, todos os bichos estavam no celeiro dispostos a ouvir. O velho Major anuncia saber que sua morte está próxima, pois este já viveu demais. Relata-os sobre a vida miserável que todos os bichos levam, principalmente da falta de alimento, já que Jones, embriagado, muitas vezes esquece de alimentá-los e os maltrata. Logo ele chega à conclusão de que toda a culpa de suas frustrações é dos humanos, que consomem sem produzir, se apoderam de seus leites, ovos, os obrigam a puxar o arado, e ainda assim é o senhor de todos os animais. A solução para isso era a revolução, expulsar Jones e sua esposa e espalhar as boas novas à todos os animais da região, assim, os bichos administrariam a granja. Mas todo aquele burburinho acaba acordando Jones, que dispara tiros com sua espingarda e cala toda a reunião. 

Três noites após, falece o velho Major. Contudo, a perspectiva de uma vida inteiramente nova não impediu que as atividades e reuniões cessassem. Começa o mês de março, e nos três meses seguintes as atividades secretas dos bichos continuam. A tarefa de instruir e organizar os bichos caiu naturalmente sobre os porcos, conhecidos como os mais inteligentes dos bichos. Mas entre eles se destacavam dois porcos: Bola-de-Neve e Napoleão, criados para serem vendidos. Napoleão era ameaçador, roliço e aparentemente com grande força de vontade. Bola-de-Neve era mais ativo, falante, com grande imaginação, porém com menos reputação pelo caráter. Garganta, persuasivo e amigo de Napoleão, era conhecido pela sua facilidade de convencer a todos até de que preto era branco. 

Os três organizaram os ensinamentos do Major em um princípio denominado Animalismo. logo também foram criados os Sete Mandamentos, que eram: qualquer um que ande sobre duas pernas é inimigo; aquele que andar sobre quatro pernas ou tiver asas, é amigo; nenhum animal usará roupa; nenhum animal dormirá em camas; nem beberá álcool; nem matará outro animal; todos os animais são iguais. No entanto, a revolução, aquilo que deveria ser o motivo da independência dos bichos, acabou por gerar grandes conflitos entre eles.

"O que distingue o homem é a mão, o instrumento com que ele perpetra toda a sua maldade."

Com o avanço da narrativa, a doutrina inicial se altera, os animais adquirem personalidades próprias, os clamores por igualdade social e justiça são colocados de lado, reprimidos e se transformam em benefícios para aqueles que juravam buscar o bem comum. A granja é tomada por represálias, atitudes cruéis e autoritarismo, trazendo à tona a famigerada reflexão de que qualquer um que tenha o poder em mãos pode facilmente ser corrompido.

O livro trata-se de uma reflexão sobre a URSS no comando de Stalin, que usava de assassinatos, sofrimento, falso moralismo, manipulações e repressão contra a oposição. Também se trata de uma sátira, narra a corrupção, as fraquezas humanas e traições, mostrando-nos as consequências do poder ilimitado. O ambiente final da história pode facilmente ser confundido, mas o autor desejava claramente transmitir a mensagem de que quem renuncia a liberdade em troca de promessas de segurança, pode acabar sem uma nem outra. Mas, para mim, o que tornou a narrativa ainda mais fantástica foi adicionar aos animais características humanas como crueldade, ingenuidade, autoritarismo, bondade, respeito, egoísmo, inveja, idealismo, etc.

"As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco."

SPOILER ALERT: O velho Major pode ser comparado à Lênin e Marx, idealizadores do comunismo. Bola-de-Neve, inteligente e cheio de ideias, seria Leon Trotski, um dos líderes que tentava cumprir à risca os ensinamentos de Marx. Napoleão, o ditador sanguinário e cruel, seria comparado a Stálin. Garganta pode ser comparado aos políticos, que usam de todos os seus recursos para persuadir os animais, que trabalham até esgotar suas forças, o que representaria o proletariado russo.

O Vilarejo - Raphael Montes

Autor: Raphael Montes
Editora: Suma de Letras
Ano: 2015
Páginas: 96
Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome. As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.

Em 2014, Raphael Montes recebeu uma ligação do sócio de um sebo de Copacabana, que após adquirir um acervo de mais de 7 mil livros de uma senhora falecida meses antes, queria saber se o autor se gostaria de analisar o material. Com uma caligrafia fina e tinta desbotada, Elfrida Pimminstoffer escreveu em cimério, língua morta do ramo botno-úgrico. Assim, Raphael pediu que um professor traduzisse o material, mas este se recusou recomendando que ele jogasse tudo fora, pois havia algo estranho nos textos. Persistente, o autor acabou conseguindo que os estranhos textos fossem traduzidos para a nossa língua, trazendo uma coletânea de contos que o introduziram na literatura de terror.

O Vilarejo apresenta um pequeno conto para cada pecado capital, e para cada conto o nome de um demônio, como por exemplo Satan, que representa a ira, Lúcifer, a soberba, Belzebu, a gula, Asmodeus, a luxúria, Leviatã, a inveja, etc. Situadas num vilarejo desconhecido, dominado pela neve e pelo frio, as histórias retratam famílias que buscam a sobrevivência e tentam lidar com os horrendos acontecimentos causados pela guerra, que estão acabando com a sanidade dos habitantes.

Foto: Romances e Leituras
O livro relaciona os 7 pecados capitais e os príncipes do inferno, como já mencionado, com os moradores do vilarejo e os personagens principais. No entanto, os vilões destas histórias não são criaturas paranormais, monstros e similares, são idosos, crianças e chefes de família, o que desconstrói de forma incrível a visão pré-concebida que se tem do terror. Inicialmente soltos e sem relação, os contos avançam e vão se entrelaçando uns aos outros dando sentido aos acontecimentos. Trás vários personagens bem devolvidos, outros nem tanto, e um cenário muito bem descrito que conduz o leitor por uma ambientação excepcional.

Fiquei muito surpresa quando percebi que os protagonistas de um conto acabam sendo coadjuvantes em outro, e que quando protagonistas, mesmo que não narrem, só se sabe o que nos permitem saber, mas quando coadjuvantes, ficamos incrédulos com o que tais personagens foram capazes de fazer. Começa com Felika, a mulher de Anatole e mãe de três filhos; passando pelas irmãs Vália, Velma e Vonda dominadas pela inveja; indo de encontro ao Negro Caolho, que "pecou" apenas por ser diferente dos que ali já estavam; seguido pela vingativa Jekaterina e Ivan, o bravo e corajoso ferreiro, que precede uma orfã criada pela avó. E é aí que somos levados ao grande final!

Foto: Leitora Viciada
A narração é incrivelmente envolvente, interessante e surpreendente, faz com que o leitor experimente sensações muito intensas. É uma história muito bem escrita e pavorosa, que nos prende e nos deixa transtornados com a natureza humana. As ilustrações macabras derão um "quê" à mais na história, e me deixaram completamente apaixonada pela edição.

Resenha: A 5ª Onda - Rick Yancey

Foto: @Narcisistas
Autor: Rick Yancey
Editora: Fundamento
Ano: 2013
Páginas: 368
Livro 01

Depois da primeira onda, só restou a escuridão. Depois da segunda onda, somente os que tiveram sorte sobreviveram. Depois da terceira onda, somente os que não tiveram sorte sobreviveram. Depois da quarta onda, só há uma regra: não confie em ninguém. Agora inicia-se A QUINTA ONDA. No alvorecer da quinta onda, em um trecho isolado da rodovia, Cassie foge deles. Os seres que parecem humanos, que andam pelo campo matando qualquer um. Que dispersaram os últimos sobreviventes da Terra. Cassie acredita que, estar sozinho é estar vivo, até que conhece Evan Walker. Sedutor e misterioso, Evan Walker pode ser a única esperança de Cassie para resgatar seu irmão — ou até a si mesma. Mas Cassie deve escolher entre a esperança e o desespero, entre a rebeldia e a entrega, entre a vida e a morte. Entre desistir ou contra atacar.

Em A 5ª Onda, volume 1 da trilogia, Rick Yancey traz ficção científica e uma invasão extraterrestre de forma totalmente diferente, mesclando de modo ímpar ação, mistério, suspense, e romance. Através do diário de uma adolescente de 16 anos, conhecemos o que se passou antes e durante uma série de catástrofes responsáveis por dizimar a humanidade. A história é narrada em primeira pessoa por Cassie Sullivan - não Cassie de Cassandra ou Cassidy, é Cassie de Cassiopeia, a constelação - e outros três personagens que fazem parte da sua vida. Cassie, uma adolescente normal de 16 anos, morava com os pais e o irmão Sammy, e nutria um amor platônico por Ben Parish, um galã jogador do time da escola que mal sabia que ela existia. Em busca de um emprego de verão para juntar economias, Cassie dedicava muito de seu tempo para pensar em seu futuro, até que uma nave-mãe misteriosa e silenciosa é avistada no céu.

Dez dias se passam sem que a nave faça qualquer contato com a Terra, deixando toda a população exasperada e curiosa. No entanto, no décimo primeiro dia desde a chegada, apagam-se as luzes. Tudo o que é movido à energia elétrica, motores e derivados, simplesmente deixa de funcionar. Isso desencadeia diversos acidentes entre carros, queda de aviões, incêndios e etc. Esta é a 1ª Onda. Alguns dias depois, acontece a 2ª Onda, ondas enormes varrem toda a parte litorânea do planeta, deixando tudo debaixo d'água. Na 3ª Onda, uma peste sangrenta acaba com metade do que sobrou da população, definhando-os aos poucos, sangrando-os por cada orifício existente no corpo e causando alucinações. Na 4ª Onda, chamada Silenciador, os "outros" assumiram nossas formas e começam sua caçada pelos últimos sobreviventes. A 5ª Onda, bem, é viver para descobrir.

"É difícil planejar algo que vai acontecer no futuro, quando o que vai acontecer no futuro é algo que não se planejou."

Cassie, ao contrários das mocinhas de alguns livros, é sagaz, forte e destemida, mesmo tendo vivenciado todos os estágios de destruição e sentido na pele a dor de algumas perdas. Em sua barraca, no meio da floresta, Cassie passa os dias tentando sobreviver e temendo ser a última humana na face da Terra. Mas algumas coisas mudarão para ela, e ela precisará decidir entre permanecer onde está, só tentando continuar viva, ou seguir em busca do irmão e correr grandes perigos. E como se não bastasse, um estranho e um reencontro a surpreenderão, trazendo muitos acontecimentos e obstáculos.

"Achei que sabia o que significava solidão antes de ele ter me encontrado, mas agora sei que não tinha a menor ideia. É impossível saber o que é a verdadeira solidão até ter conhecido o oposto."

O universo e os acontecimentos arquitetados pelo autor são surpreendentes! Além do mais, o vilão "invisível", ardiloso e imbatível foi simplesmente incrível para a trama. Eles sabem a maneira como a humanidade pensa, age, e sempre estarão um passo a frente, o que torna o embate ainda mais emocionante. Confesso que os "outros" são os melhores vilões sobre os quais eu já li! Inteligentes e habilidosos, decidiram que os seres humanos deveriam ser extinguidos em estágios - "ondas"-, não prejudicando completamente o planeta. Os outros lados da história narrados pelos demais personagens também tornaram a narrativa rica e detalhada, embora um tanto quanto lenta.

A forma com que Rick Yancey transpôs os sentimentos humanos me deixou surpresa. E o que mais me marcou no livro foi a mensagem que o autor trouxe, de que todas as vidas valem a pena, todos merecemos uma chance, todos somos valiosos. Pois, no momento em que decidirmos que uma pessoa não importa, a maldade vence. Gostei tanto do livro que marquei como favorito no Skoob, e estou ansiosa para a adaptação que será lançada dia 14 de janeiro.

O Príncipe dos Canalhas - Loretta Chase

Foto: Segredos Entre Amigas
Autor: Loretta Chase
Editora: Arqueiro
Ano: 2015
Páginas: 288
Livro 03
Até que um dia ele conhece Jessica Trent... Acostumado à repulsa das pessoas, Dain fica confuso ao deparar com aquela mulher tão independente e segura de si. Recém-chegada a Paris, sua única intenção é resgatar o irmão Bertie da má influência do arrogante lorde Belzebu. Liberal para sua época, Jessica não se deixa abater por escândalos e pelos tabus impostos pela sociedade – muito menos pela ameaça do diabo em pessoa. O que nenhum dos dois poderia imaginar é que esse encontro seria capaz de despertar em Dain sentimentos há muito esquecidos. Tampouco que a inteligência e a virilidade dele pudessem desviar Jessica de seu caminho. Agora, com ambas as reputações na boca dos fofoqueiros e nas mãos dos apostadores, os dois começam um jogo de gato e rato recheado de intrigas, equívocos, armadilhas, paixões e desejos ardentes.

Em maio deste ano a Editora Arqueiro deixou os fãs de romances de época radiantes com a promessa de um romance surpreendente entre uma linda dama respeitável e um brutamontes nobre e assustador. No entanto, não tive tão boas opiniões à respeito da história, por isso fiquei dias e dias pensando no que escrever para vocês. Narrado em terceira pessoa, O Príncipe dos Canalhas, livro 03 da série Canalhas, foi o primeiro da série a ser publicado pela editora, devido aos livros possuírem enredos distintos e não precisarem de uma ordem para serem entendidos.

Sebastian Ballister é o grande e perigoso marquês de Dain, conhecido como lorde Belzebu, um homem machista, arrogante, egoísta e prepotente disfarçado de vítima, cujo caráter foi moldado de acordo com as inúmeras dificuldades enfrentadas por ele. Ninguém nunca havia visto uma criança tão feia desde o nascimento dele, e isso fez com que sua relação com o pai fosse baseada em nojo e desprezo, já que seu pai fazia de tudo para o esconder dos olhos da sociedade francesa. Para piorar as coisas, a mãe de Sebastian fugiu com um homem quando ele tinha apenas oito anos de idade. Logo após, o pai de Sebastian resolve mandá-lo para um colégio interno. Rejeitado pelo pai e humilhado pelos colegas de escola, sua aparência horrenda e medonha sempre foi motivo de risadas e ofensas por onde passava. 

Passado o tempo, Dain herda toda a riqueza do pai, e com sua esperteza duplica toda a herança, se tornando um homem milionário e poderoso, começando também a ser considerado o maior canalha de toda Paris, e este não só sabia disso como também adorava o título. Ser temido por sua aparência e "respeitado" pela fama, o atraía e aumentava seu ego. Nenhuma dama respeitável se atrevia a correr o risco de ter a sua honra manchada por ser vista com ele. Diante disso, Sebastian passa os dias vivendo de festas regadas a bebidas, depravações com prostitutas e amigos que esbanjavam seu dinheiro, tudo isso livre dos olhares traiçoeiros da conservadora sociedade parisiense.

"- Um enorme paspalho. Um brutamontes arrogante, egoísta e imbecil. - disse Jessica
 - Não se esqueça de "idiota pretensioso". - disse Dain"

Canalha assumido, ele não mede esforços ao tentar prejudicar e arrastar para o fundo do poço o irmão de Jessica Trent, um paspalhão lerdo que admira todo o poder de Dain e fecha os olhos para o que ele está fazendo com sua vida. Jessica, uma jovem bela, inteligente, determinada e desafiadora, chega em Paris na tentativa de afastar seu irmão do marquês. É aí que o destino os aproxima, e quando ambos se conhecem as coisas começam a mudar, e um relacionamento inesperado que tem tudo para dar errado surge, jogando a respeitabilidade de Jessica ao acaso.

Mesmo sabendo quem ele é, Jessica desafia a si mesma a conquistá-lo e, aos poucos, começa a enxergar além de sua máscara de Lorde Belzebu. Encantada e atraída, Jessica parece não notar que Dain não é um galã, pois como se não bastasse, Dain desmerece as mulheres o tempo todo, as chama de mercadorias, frutos do demônio e meros objetos criados para a satisfação dos homens. Essa tentativa de mascarar relacionamentos e personalidades abusivas, como acontece em Cinquenta Tons, me preocupa muito em algumas mulheres. Ser viril não é ser abusivo e desrespeitoso, e essa diferença não parece ter importância durante a narrativa de Loretta Chase.

"Ele era um monstro, mas ela o desejava mesmo assim, desejava cada coisa terrível que havia nele..."

Ao fim da leitura cheguei a conclusão de que a autora exagerou muito na construção do personagem, o que o tornou excessivamente irritante e machista, o que não deve ser relevado somente por se tratar de um romance de época. Ela deu à Dain a necessidade de realçar por diversas vezes o quanto ele é depravado, machista, e o quanto as mulheres são reles objetos para ele. E mesmo depois de encontrar o amor em uma mulher, sua essência permaneceu a mesma, e isso foi muito negativo para mim. A leitura valeu a pena, pois pude aprender várias coisas através do caráter de Dain, mas não foi excepcional, já que o protagonista me irritou durante todo o enredo, e o romancismo típico dos romances de época não foi tão explorado.

A Escolhida - Lois Lowry

Foto: Minha Vida Literária

Autor: Lois Lowry
Editora: Arqueiro
Ano: 2014
Páginas: 190
Livro 02
Kira, uma órfã de perna torta, vive em um mundo onde os fracos são deixados de lado. A partir do momento da morte de sua mãe, ela teme por seu futuro até que é perdoada pelo Conselho de Guardiões. A razão é que Kira tem um dom: seus dedos possuem a habilidade de bordar de forma extraordinária. Ela supera a habilidade de sua mãe, e lhe cabe a tarefa que nenhum outro membro da comunidade pode fazer. Enquanto seu talento a mantêm viva e traz certos privilégios, ela percebe que está rodeada de mistérios e segredos, mas ninguém deve saber sua intenção de descobrir a verdade sobre o mundo.

O livro A Escolhida, segundo volume da série O Doador de Memórias, conta a história de Kira, que sempre foi rejeitada em seu vilarejo. Nascida com uma perna torta, ela deveria ser levada para o Campo da Partida, onde todas as pessoas que tinham algum tipo de deficiência eram deixadas para morrer. Porém, sua mãe, Katrina, conseguiu salvá-la com a promessa de que a menina não seria um fardo para a comunidade. Anos depois, Kira mostra-se uma ajudante eficiente no galpão de tecelagem, conta histórias para as crianças pequenas e faz lindos bordados.

Tudo parece se encaminhar bem, até que Katrina morre de uma doença súbita e, para que outras pessoas não sejam contaminadas, o casebre das duas é queimado. Sendo rejeitada por sua comunidade depois que sua mãe morre, todos querem sua morte e até convocam um julgamento para decidir seu destino. Contudo, a vida reserva uma surpresa para a garota. No julgamento de Kira, para sua surpresa, os chefes a encarregam de uma tarefa grandiosa: a responsabilidade de continuar o trabalho da mãe, consertando os bordados de uma túnica que há séculos passa de geração em geração.

Kira fica radiante com a proposta e o aceita de bom gosto, o que ela não sabe é que existem muitos segredos por trás das profundezas do edifício e de todos os guardiões. Abrigada no centenário Edifício do Conselho, ela faz amizade com Thomas, o entalhador responsável por restaurar o cajado usado na Congregação, a maior cerimônia do vilarejo. Os dois vivem juntos em um mundo de conforto e companheirismo, mas que não demora a ser abalado. Eles começam a suspeitar que a grandiosidade de suas tarefas é apenas o disfarce para algo nefasto e, diante da realidade, não poderão ficar impassíveis. Seu pai morto, sua mãe deixada para morrer e um bebê que chora todas as noites, são uns dos grandes mistérios deste livro.

Kira é confrontada e perguntas e mais perguntas invadem sua mente: O que haverá do outro lado? Que mundo é esse que ela vive? O que eles querem de dela? Ela então precisará tomar muitas decisões e tentar mudar o rumo da sua história.

"Em meio á penumbra, ela observou o cego, o menino desertor e o cão de rabo torto se afastarem pela trilha. Quando já não podia mais vê-los, dirigiu-se ao que o futuro lhe reservava. O azul estava em sua mão e ela conseguia senti-lo palpitar, como se tivesse recebido o sopro da vida e começasse a renascer."

Em uma incrível análise de uma sociedade do futuro, Lois Lowry leva o leitor a mais uma jornada de reflexão sobre memória, criatividade e valores que aprendemos a aceitar como naturais. Em um clima quase de Idade Média, a protagonista e os personagens são bens construídos e revelam a real sagacidade da natureza humana quando posta a prova. A Escolhida é um livro extremamente audacioso e fácil de ser lido, é muito interessante e abre uma reflexão acerca do mundo construído impecavelmente por Lois Lowry.

Simplesmente amei! Vale ressaltar que os personagens do segundo livro não são os mesmos que os personagens do primeiro, embora o universo seja praticamente o mesmo, e isso foi o que me surpreendeu no início, já que não tive essa informação anterior a leitura. Confesso que estou ansiosa para o terceiro livro e espero que possa dar mais algum sentido e unir as duas histórias.

A Rainha Vermelha - Victoria Aveyard

Imagem: Daninha Farias
Autor: Victoria Aveyard
Editora: Seguinte
Ano: 2015
Páginas: 424
O mundo de Mare Barrow é dividido pelo sangue: vermelho ou prateado. Mare e sua família são vermelhos: plebeus, humildes, destinados a servir uma elite prateada cujos poderes sobrenaturais os tornam quase deuses. Mare rouba o que pode para ajudar sua família a sobreviver e não tem esperanças de escapar do vilarejo miserável onde mora. Entretanto, numa reviravolta do destino, ela consegue um emprego no palácio real, onde, em frente ao rei e a toda a nobreza, descobre que tem um poder misterioso… Mas como isso seria possível, se seu sangue é vermelho? Em meio às intrigas dos nobres prateados, as ações da garota vão desencadear uma dança violenta e fatal, que colocará príncipe contra príncipe — e Mare contra seu próprio coração.
                                                       
                               
A Rainha Vermelha é um livro que já começa a te surpreender pela capa, mas não é apenas o encanto da capa e a ótima diagramação que faz você se apaixonar por esse livro, a história te faz ficar hipnotizada pelos personagens e todas as reviravoltas do livro.

Mare Barrow tem sangue vermelho, por natureza ela e seu povo tem que sucumbir ao fato de serem servos, meros plebeus e não ter nenhum direito. Seus três irmãos mais velhos foram para a guerra e Mare se não conseguir um emprego, o que é quase impossível, vai ter que ir também, mas acontece que os que vão quase nunca voltam. Vítimas de uma monarquia autoritária e injusta, Mare rouba o que pode para ajudar a família, se esgueirando por entre vielas com os bolsos cheios de moeda, tentando roubar de volta tudo o que já roubaram dela.

É numa dessas noites que ela encontra um rapaz e sua vida muda para sempre, um jovem de aparência dura e ao mesmo tempo doce que, aparentemente, parece ser algum trabalhador. Ele a pega tentando roubar e em um ato de misericórdia deixa que ela vá. O que Mare não sabe é que esse mesmo rapaz é um príncipe, precisamente o futuro rei de seu país desmoronado. O que ela também não sabe é que tem poderes, como os prateados, mas seu sangue sempre foi vermelho.
"O mundo é prateado, mas também cinza. Não existem o preto e o branco." 

É uma história dinâmica em que a personagem cresce há cada capítulo, descobrindo a si mesma e a todos a sua volta, que por sinal são seus inimigos. No entanto, não é somente Mare que corre perigo, toda a monarquia corre perigo com a chamada Guarda Vermelha que ameaça destruir a ditadura imposta por eles. Os primeiros raios de esperança começam a aparecer no horizonte, e ela faz parte disso, ela sabe que pode mudar o curso dessa luta.

Com um final surpreendente que vai deixar você de queixo caído e te ensinar a não confiar em ninguém, uma história que te faz acreditar e desacreditar, que coloca traidores ao lado de traídos e mostra que as pessoas na maioria das vezes não são quem realmente são. Um livro destruidor que faz você devorar cada página e ansiar ainda mais pela continuação, uma mistura eletrizante de Jogos Vorazes e a Seleção, uma trilogia que nasceu para o sucesso e para ganhar o coração de milhares de leitores. Simplesmente amei!

Por Lugares Incríveis - Jennifer Niven

Imagem: Daninha Farias

Autor: Jennifer Niven
Editora: Seguinte
Ano: 2015
Páginas: 336
"Violet Markey tinha uma vida perfeita, mas todos os seus planos deixam de fazer sentido quando ela e a irmã sofrem um acidente de carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pelo que aconteceu, a garota se afasta de todos e tenta descobrir como seguir em frente. Theodore Finch é o esquisito da escola, perseguido pelos valentões e obrigado a lidar com longos períodos de depressão, o pai violento e a apatia do resto da família. Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá ir embora da cidadezinha onde mora, Finch pesquisa diferentes métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre da escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a pular."

Sempre quando imaginamos um primeiro encontro, pensamos em uma festa, restaurante ou na casa de um amigo, não em uma torre, e não quando você está prestes a pular. É isso que acontece com os dois protagonistas dessa história, ambos convivendo com suas dores interiores que chegam a pensar se não é justo acabar com tudo isso.

O livro começa com Theodore Finch, cuja primeira frase é: "Será que hoje é um bom dia para morrer?". Entre os diálogos e as aulas monótonas da semana ele sempre pensa em desistir, mas algo que me surpreendeu em Finch foi que quando ele está "acordado" ele tenta viver a vida da melhor maneira possível, tentando aproveitar ao máximo cada momento, conhecer pessoas, visitar lugares, viajar. Coisas que levamos a vida inteira para aprender.

Já Violet que sempre sonhou em ser escritora e que tinha um blog com a irmã antes do acidente parece querer desistir de tudo. Usando os óculos de Eleanor e prometendo nunca mais escrever, ela segue seus dias, pensando no desastre da sua vida.
"O mundo quebra a cada um deles e eles ficam mais fortes nos lugares quebrados."
Violet sempre foi popular na escola, e Finch sempre foi conhecido como o esquisito e sofria com isso por todos na escola. No alto da torre, quando começa o livro, Theodore convence Violet a descer e pensar na vida de outra forma, mesmo ele passando pela mesma coisa, fazendo ainda com que toda a escola pense que Violet é que o salvou. No outro dia, na aula de geografia, o professor apresenta um trabalho em que os alunos deveriam visitar os lugares em Indiana, e Theodore pede para fazer o trabalho com Violet, que aceita relutante. Eu pessoalmente amo o personagem do Finch, suas filosofias, seu jeito, suas aventuras; e no decorrer da história Violet também percebe que ele é muito mais do que ela esperava.

A medida que eles vão se encontrando para fazer o trabalho, eles começam a se tornar verdadeiros amigos, ambos compartilhando suas vidas e seus sofrimentos e tentando encorajar um ao outro a superar seus medos e traumas. A depressão é uma doença muito séria, e muitas vezes a maioria das pessoas não ligam. O livro retrata fielmente como é sofrer de depressão e sentir que sua vida não vale a pena. Sinceramente, esse livro deveria ser lido por todas as pessoas, pelo menos uma vez na vida.

"Olho para ela longamente. Conheço a vida bem o suficiente para saber que não podemos acreditar que as coisas vão ser sempre iguais, não importa o quanto a gente queira. Não podemos impedir que as pessoas  morram. Não podemos impedi-las de ir embora. Me conheço bem o suficiente pra saber que ninguém consegue me manter acordado ou me impedir de dormir. Tenho que fazer isso sozinho. Mas, cara, como gosto dessa garota."

Por Lugares Incríveis é um livro inesquecível, com um final devastador que te deixa passar noites em claro pensando em como é linda toda a história. Um dos meus favoritos! Sempre quando me lembro desses dois personagens peculiares me dá um aperto no coração. Eles são incríveis e ambos com suas próprias dores despertam a vontade de salvar um ao outro e continuar vivendo.
"O que percebo agora é que o que importa não é o que a gente leva, mas o que a gente deixa."  

O Menino do Pijama Listrado - John Boyne

Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2006
Páginas: 192
Bruno é um garoto alemão perspicaz e inteligente de apenas nove anos, mora em Berlim com sua mãe, pai e sua irmã Gretel, a quem ele chama de "caso perdido". Em sua cidade natal, Bruno tinha tudo de que precisava para viver bem: uma casa grande, onde explorava e brincava alegremente, amigos e um conforto típico de uma família com boas condições financeiras.

A narrativa se inicia quando ele e a família precisam se mudar às pressas devido a uma proposta de emprego irrecusável que o pai recebe, trabalho este que Bruno desconhece, apesar de sempre ouvir as pessoas se referindo a ele como comandante. Seu novo lar, ao contrário da casa de Berlim, é pequeno, isolado e desconhecido. Solitário e entendiado, o garoto começa a explorar alguns lugares da casa e arredores, até que encontra uma janela pequena no alto da parede de seu quarto, cuja vista é um lugar estranho onde as pessoas, em sua maioria homens - desde crianças a idosos -, ficam de pijamas o dia todo. Curioso, ele faz diversas perguntas aos familiares e empregados sobre a cerca que separa a casa do enorme campo. No entanto, ninguém lhe dá grandes detalhes, tudo o que ele sabe é que não deve ir ao outro lado e aquelas pessoas também não podem atravessar a cerca, o que Bruno acha muito injusto, pois do outro lado há muitas crianças que poderiam ser seus amigos.

"[…] enquanto ele observava as centenas de pessoas na distância prosseguindo com os seus assuntos, e era o fato de que todos eles – os meninos pequenos, os meninos grandes, os pais, os avôs, os tios, as pessoas que vivem sozinhas nas ruas da vida e não parecem ter parentes – usavam as mesmas roupas: um conjunto de pijama cinza e listrado com um boné cinza listrado na cabeça."

Como toda criança tomada pela curiosidade, Bruno resolve explorar mais o território, se aproximando muito da cerca e encontrando do outro lado Shmuel, um garoto cabisbaixo, faminto, sujo e cansado, que coincidentemente nasceu no mesmo dia que ele. Aos poucos eles desenvolvem uma grande amizade, mesmo com a cerca que os separa; Bruno presenteia o amigo com pão e alguns alimentos, quase todos os dias, enquanto se encontram às escondidas. 

Durante boa parte da narrativa o protagonista permanece com o desejo de ir até o campo de concentração, que inocentemente chama de "fazenda". A inocência da infância funciona como um pano de fundo para o desenrolar; Gretel, influenciada diretamente por pensamentos nazistas, começa a ter atitudes inadequadas para uma garota de sua idade, a mãe começa a discordar do trabalho do marido de chefiar o campo, e a mente de Bruno fica cada vez mais confusa e atraída para aquela realidade desconhecida.

"A infância é medida por sons, aromas e visões, antes que o tempo obscuro da razão se expanda."

Outros acontecimentos se desenrolam, tornando a narrativa ainda mais envolvente. As páginas foram passando simultaneamente, sem que eu notasse a história me prendeu do início ao fim, me impossibilitando de fazer qualquer coisa que não fosse descobrir que rumo a cumplicidade de duas crianças com realidades opostas tomaria. O autor soube dividir com êxito o foco da história, alternando entre o que acontece com os dois meninos e o que a Segunda Guerra Mundial desencadeou. O olhar crítico do autor uniu uma visão mais completa acerca da Guerra e da vida de pessoas que ficaram no meio do Holocausto com o que um coração puro e inocente pode fazer.

Apesar de o livro ser narrado em terceira pessoa, o ponto de vista de Bruno tem grande importância e impacto. Acredito que a amizade entre um judeu e um alemão de família nazista nunca mais poderá ser retratada com tanta veemência como foi feito por John Boyne, com sua narração sensível e tocante foi impossível não chorar em vários momentos. Mesmo que eu tenha lido o livro em apenas um dia, continuei fragilizada por muito tempo depois. O final é chocante, emocionante, arrasador e imprevisível. Não sei bem o que eu esperava, mas certamente não era isso, é uma trama completamente digna dos mais de 5 milhões de exemplares vendidos ao redor do mundo, e também da adaptação cinematográfica que ganhou, em 2008. Sem dúvidas, um dos meus livros favoritos por toda a vida.

Garota Exemplar - Gillian Flynn

Imagem: Melina Souza
Autor: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Ano: 2014
Páginas: 448
Ammy Dunne desapareceu. No dia do seu quinto aniversário de casamento, seu marido, Nick, encontra a casa revirada e nem sinal da esposa. Tudo indica se tratar de um sequestro, e Nick imediatamente chama a polícia, mas logo as suspeitas recaem sobre ele. Exibindo uma estranha calma e contando uma historia bem diferente da relatada por Amy em seu diário, Nick parece cada dia mais culpado, embora continue a alegar inocência. À medida que a investigações se desenrolam, porém, fica claro que a verdade não é o forte do casal.
Nick e Amy eram um casal perfeito vivendo um conto de fadas em Nova York, até serem obrigados a se mudar para o interior. A partir daí a vida vira um inferno. Debaixo do mesmo teto, eles mal se falam e a tensão cresce a cada dia. Dono de um bar financiado por Amy, Nick se torna um homem frio e distante, com pensamentos um tanto obscuros quanto à sua esposa. No entanto, em seu 5º aniversário de casamento, Nick encontra sua sala de estar revirada e Amy está desaparecida. 

O livro é dividido em três partes basicamente. Primeiramente, a história é contada na visão de Nick e alguns capítulos são anotações em diário de Amy, que nos mostram um pouco mais do passado, como o casal chegou até ali e de certa forma nos fazem olhar para Nick com olhos acusadores, já que suas histórias não batem com as contadas no diário. No entanto, Nick nega de forma ferrenha que tenha feito algo com sua esposa, enquanto as investigações o colocam em péssima posição. Sendo contado em primeira pessoa, na visão de Nick, o livro nos mostra profundamente a mente do personagem, tornando-o muito real, quase tocável.

A história vai sendo contada a medida que a investigação policial se desenrola, onde o passado também vai sendo cada vez mais exposto e deixa cada vez mais dúvidas na mente do leitor, pois a cada nova descoberta, a cada nova pista, mais incertezas surgem e mais a história caminha para um rumo totalmente diferente. Nesse ponto, principalmente, Gillian cria um enredo muito inteligente, o que é claramente perceptível quando cada detalhe novo, cada nova perspectiva de personagem apresentada é totalmente explicada e totalmente coerente com a história, ou seja, nada fica pra trás, sem explicação, sem lógica. Além disso, em nenhum momento o leitor se sente sobrecarregado de informação, precisando voltar a leitura para lembrar de algum detalhe. 

Propositalmente, em cada parte do livro (as 3 que citei anteriormente), é revelado algo que muda totalmente o rumo da história e todas as certezas do leitor. Isso torna o livro totalmente incerto, não num sentido negativo, pelo contrário: a incerteza decorrente de revelações arrebatadoras torna a história a cada página mais fascinante, mais curiosa e fica mais difícil parar de ler.

É difícil falar do livro sem contar algum spoiler, mas posso dizer que Garota Exemplar, a partir da revelação gradual e impactante de quem realmente são os personagens, nos faz questionar qual o limite da persistência humana, até onde iríamos para ter o que queremos, até onde é aceitável ir e por fim, nos faz questionar sobre o quanto realmente conhecemos das pessoas à nossa volta.
"Há algo de perturbador sobre recordar uma memória quente e sentir-se completamente frio."

A Probabilidade Estatística do Amor à Primeira Vista - Jennifer E. Smith

Imagem: Revista 21
Autor: Jennifer E. Smith
Editora: Galera Record
Ano: 2013
Páginas: 223

A probabilidade estatística do amor à primeira vista é uma história romântica, capaz de conquistar fãs de todas as idades. Quem imaginaria que quatro minutos poderiam mudar a vida de alguém? Mas é exatamente o que acontece com Hadley. Presa no aeroporto em Nova York, esperando outro voo depois de perder o seu, ela conhece Oliver. Um britânico fofo, que se senta a seu lado na viagem para Londres. Enquanto conversam sobre tudo, eles provam que o tempo é, sim, muito, muito relativo. Passada em apenas 24 horas, a história de Oliver e Hadley mostra que o amor, diferentemente das bagagens, jamais se extravia.

O que será possível acontecer em 24 horas? 1440 minutos, 86.400 segundos. Um dia pode passar inebriante ao nosso lado sem que a gente ao menos perceba. Muito tempo, pouco tempo, números, segundos, escolhas... mas não quero falar sobre números e sim sobre um livro encantador: A Probabilidade Estatística do Amor á Primeira Vista.

Com o decorrer de nossos dias passamos a ter a impressão que um dia apenas não fará diferença alguma. Mas e se...e se... Haverá sempre um e se quando não há um ponto final. Acontece exatamente isso com Hadley, sua vida muda totalmente em apenas um dia, isso mesmo, o livro se passa em apenas 24 horas.

Hadley se vê em um difícil impasse quando tem que pegar um avião para a Europa para ir ao casamento de seu pai - com quem ela não se dá bem - que a abandonou juntamente com sua mãe, mas que ainda quer manter sua imagem paterna amorosa e presente. Entretanto, o que acontece em seguida é algo que ela não imaginava, ela se atrasa quatro minutos, e por conta desses minutos, Hadley perde seu voo e tem que esperar cerca de três horas pelo próximo. Vai se atrasar para o casamento que ela nem mesmo queria ir.

Enquanto espera no aeroporto ela conhece Oliver, um britânico fofo que se senta ao seu lado e que também irá para Londres. Sim, ela vai para Londres. Sim, a cidade parece ser tudo o que os folders de turismo prometem. Mas o que ela espera ao aterrissar não é a guarda da rainha, nem o alegre badalar do Big Ben. É o fim da sua família, de qualquer esperança de ter seus pais de volta novamente, de que tudo voltasse ao normal. 

Oliver é tão gentil e atencioso que a ajuda tanto com a bagagem física quanto emocional. Num golpe de sorte, acaso, fatalidade ou fortuna, ele ocupa o assento ao lado, onde ambos cruzam o Atlântico discutindo o futuro, o presente, seus sentimentos, Dickens, literatura, as nuvens e os sonhos.
"Eu pareço ser melhor do que sou quando estou com ela."
E agora? Quando o avião aterrissar o que acontecerá com essas duas pessoas que acabaram de se conhecer? Cada um seguirá seu rumo, cada um contará sua própria história quando chegarem aos seus destinos. Afinal, qual a probabilidade de se apaixonarem á primeira vista? Passado assim, tão rápido quanto uma brisa de verão, a história de Oliver e Hadley mostra que o amor, diferentemente das bagagens, jamais se extravia.

Resenha Premiada: Mar da Tranquilidade - Katja Millay

Imagem: Irmandade Literária
Autor: Katja Millay
Editora: Arqueiro
Ano: 2014
Páginas: 368

Nastya Kashnikov foi privada daquilo que mais amava e perdeu sua voz e a própria identidade. Agora, dois anos e meio depois, ela se muda para outra cidade, determinada a manter seu passado em segredo e a não deixar ninguém se aproximar. Mas seus planos vão por água abaixo quando encontra um garoto que parece tão antissocial quanto ela. É como se Josh Bennett tivesse um campo de força ao seu redor. Ninguém se aproxima dele, e isso faz com que Nastya fique intrigada, inexplicavelmente atraída por ele. A história de Josh não é segredo para ninguém. Todas as pessoas que ele amou foram arrancadas prematuramente de sua vida. Agora, aos 17 anos, não restou ninguém. Quando o seu nome é sinônimo de morte, é natural que todos o deixem em paz. Todos menos seu melhor amigo e Nastya, que aos poucos vai se introduzindo em todos os aspectos de sua vida. À medida que a inegável atração entre os dois fica mais forte, Josh começa a questionar se algum dia descobrirá os segredos que Nastya esconde – ou se é isso mesmo que ele quer.

O livro é narrado em primeira pessoa por Nastya Kashnikov e Josh Bennett. Nastya, uma garota de 17 anos cuja vida nunca foi como a das demais garotas, passou os últimos três anos alimentando uma fúria inexplicável e o desejo de vingança, isto porquê foi privada de algo que a tornava viva e completa. Aos 15 anos algo aconteceu, e de certa forma a matou, tirou sua identidade, desfigurou-a, lhe deixou cicatrizes externas e internas. Sabe-se que sua mão esquerda foi muito danificada, 22 dos 28 ossos que têm foram quebrados, precisando então lidar com pinos, ossos estilhaçados e a falta de controle total de sua mão. Ela não fala mais; como consequência resolve se isolar, odiar a tudo e todos. Desejando se poupar do santuário de lembranças que é a sua casa em Brighton, Nastya resolve se mudar para outra cidade e morar com a tia Margot - uma solteira de 30 e poucos anos, linda e atraente. Presumindo que adotar outra personalidade esconderá a frágil garota que é, ela muda desde suas roupas a seu comportamento. O que ela não sabe, porém, é que o futuro de sua vida pode passar a pertencer a alguém.

"Até que morrer não é tão ruim assim depois que já aconteceu uma vez. E eu já morri. Não tenho mais medo da morte. Tenho medo de todo o resto."

Josh Bennett, também de 17 anos, tornou-se sinônimo de morte para todos a sua volta, seus entes mais queridos faleceram tragicamente, restando a impressão de que se aproximar demais dele pode significar não pertencer mais a este plano. Desde a morte da mãe e da irmã, parecia que ele também havia perdido o pai e a si mesmo, já que ambos nunca mais foram os mesmos, até que ele realmente perde e busca aceitar, seguindo sua vida na companhia do avô - já muito doente e debilitado. Josh não se permite atrair a atenção das pessoas, mesmo que elas o notassem, já que preferem negar sua existência do que questionar-se quem ele verdadeiramente é. Com todo o seu jeito misterioso e sereno, Nastya enxerga nele uma espécie de campo de força, que o permite passar despercebido da mesma forma que ela gostaria. Invejando tal capacidade, algo nela é despertado, colocando em jogo a vida que vem tecendo cuidadosamente.

Quando o romance entre ele e Nastya começa a se desenrolar, Bennett já está emocionalmente cansado de perdas, o que torna a possibilidade de haver sentimentos entre ambos carregada de frustrações. O período em que Nastya sentia pena de si mesma cessou, dando lugar ao ódio, inconformismo e à culpa. Já que não teve controle sob o que sofreu, ela se sente impotente, preferindo que a dissessem que ela foi a culpada por tudo. Eles precisam conviver com o passado assombrando-os, dia após dia.

"Acho que sempre vou estar despedaçada. Posso trocar os fragmentos de lugar, rearrumá-los, dependendo do dia, dependendo do que eu preciso ser. Posso mudar num piscar de olhos e ser muitas garotas diferentes, sem que nenhuma delas tenha que ser eu."

Em alguns momentos da narração são notáveis as subjetividades, também há alguns palavrões e cenas em que a maturidade para a leitura é fundamental. Por tudo o que os protagonistas sofreram, muito do que dizem é carregado de ódio, rancor e agressividade. Nastya, principalmente, se martiriza por quase todo o decorrer da história, o que pode não ser a preferência de qualquer leitor, mas não foi problema algum para mim. Pelo contrário, desde o início senti vontade de que os personagens realmente existissem, senti vontade de consolar Nastya, dizer muitas coisas a ela e abraçá-la. Me identifiquei com diversas passagens do texto, fiz sete marcações com post-it mas ainda assim gostaria de ter marcado o livro todo.

É o romance de estréia de Katja Millay, o que não me ocorreria de forma alguma, já que a construção dos personagens e do enredo é perfeita. A autora trata de temas polêmicos com muita facilidade, mescla um enredo triste e transitório de forma que a curiosidade do leitor é despertada cada vez mais. A opção da autora de revelar os principais mistérios dos protagonistas mais ou menos na metade do livro, deixou o final com um "quê" de que poderia ser melhor, mesmo sendo imprevisível. 

Facilmente definido como uma leitura extremamente perturbadora, Mar da Tranquilidade era uma das minhas mais desejadas leituras; apostei todas as fichas e preciso ressaltar que valeu a pena. Certamente não serei mais a mesma, a protagonista me ensinou que algumas tragédias podem tirar algo de você, mas se ainda assim você puder acordar e levantar os pés para caminhar, há motivos para acreditar nos milagres cotidianos, coisas como seu coração continuar batendo.

Sorteio:

Sabia que você pode levar este livro para casa? O Dia dos Namorados já passou, mas mesmo assim resolvi presenteá-los com um romance arrebatador, tudo isso em parceria com a Editora Arqueiro. Não são muitas regras obrigatórias, são poucas e úteis para a divulgação do sorteio. As demais que surgirão após o preenchimento das obrigatórias, são chances extras que podem te favorecer. 

Regras obrigatórias:
- Deixar e-mail para contato;
- Curtir a página do blog;
- Seguir no GFC (é fácil e dá para seguir com qualquer conta);
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- Curtir a página da Editora Arqueiro.

Importante: A promoção se inicia hoje e termina no dia 18 de Julho ao meio dia. É necessário que deixe e-mail para contato! O vencedor será anunciado na página do blog e nessa mesma postagem, e em seguida eu entrarei em contato por e-mail; caso o ganhador não responda em 48h o sorteio será refeito.

O envio do exemplar é de plena responsabilidade da editora.

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Clube da Luta - Chuck Palahniuk

Autor: Chuck Palahniuk
Editora: LeYa
Ano: 2012
Páginas: 272

A obra conta a história do "narrador", um homem cujo nome não nos é revelado, apesar de os leitores o conhecerem como Jack, com uma vida solitária e vazia, que tenta preenchê-la com o consumismo desenfreado e com visitas constantes à grupos de apoio para pessoas com câncer, onde após ver as pessoas morrendo e se debulhar em lágrimas, ele consegue ir pra casa e dormir. Lá ele conhece Marla Singer, visitante dos mesmos grupos e que assim como ele não possuí doença alguma, o que o deixa completamente perturbado, de novo.

Sua vida é aparentemente uma montanha russa que só vai para baixo, até o dia em que ele conhece (que rufem os tambores) Tyler Durden, um dos melhores personagens com o qual já tive contato e que é o completo oposto de Jack: completamente inconsequente, vivendo às margens da sociedade e sob suas próprias leis. Tyler ganha a vida fabricando sabonetes caseiros e arrasta o narrador para seu mundo marginal e, se assim posso dizer, dando algum sentido para sua vida. Os dois dão início, então, ao Clube da Luta, uma reunião de homens com os instintos a flor da pele que se revezam em lutas ferozes.

De um livro cujo autor teve as mais variadas experiências com as mais variadas mentes, não se espera nada além de uma exploração profunda de seus personagens. De forma extremamente original, Chuck faz o leitor viajar loucamente pelas idéias de Jack, e nos apresenta a maneira inconsequente de Tyler ver o mundo, ainda algumas vezes sem uma lógica cronológica.

Primeira obra publicada de Chuck Palahniuk, Clube da Luta é ácido e inebriante, recheado de humor negro e pesadas críticas que nos fazem terminar a leitura com a mente perturbada e mais do que chocada com seu final completamente óbvio e ao mesmo tempo inesperado. Fica aqui, então, a minha total recomendação dessa excelente obra, assim como seu filme, que capta muito bem o cerne do livro.


"Não queira ser completo, nada de querer ser perfeito. Pare de tentar controlar tudo e deixe o barco correr."

O Segredo de Indie - Tara Taylor e Lorna Schultz

Autor: Tara Taylor e Lorna Schultz Nicholson
Editora: Butterfly
Ano: 2015
Páginas: 290
Indigo Russel (sim ela tem o nome de uma cor), mas conhecida como Indie, aparenta ser uma garota normal, vai à escola, conversa com as amigas, gosta de se divertir e está quase se formando. O que nem todos sabem é que ela esconde um segredo que vai muito além do que qualquer um deles imaginava. Logo depois da morte de seu avô começou a ver espíritos, começando pelo avô que sempre lhe dava conselhos e depois muitos outros aparecem, alguns apenas para se comunicarem, outros para a atormentar.

Além de ver as pessoas que já morreram ela também tem visões, pequenos reflexos, ou sinopses de algo que acontecerá no futuro com as pessoas de sua família e principalmente com seus amigos, mas nunca com ela mesma. No entanto, com as incansáveis visões que sempre continuam a perturbá-la, ela só quer desistir e ser normal, como qualquer outra garota.

Na escola e em outros locais, ela tem visões estranhas com seus colegas, inclusive com o garoto rejeitado da turma e com o namorado de sua melhor amiga.  Indie não sabe se deve contar suas visões para o bem deles, ou deve esconder para si. Nunca quis nada disso, não queria nem tentar, só queria ser deixada em paz, seria difícil isso?

Sempre que tem visões, ela se desliga do mundo, sua cabeça parece explodir e a visão fica turva. Se contasse para as pessoas, achariam que era estaria louca e ela já está cansada disso. Talvez ela encontre alguém no qual irá se apaixonar, talvez encontre alguém para amá-la do jeitinho que ela é, talvez consiga superar tudo isso e consiga aceitar a si mesma. Será?

''Eu me odiava. Odiava ser daquele jeito. Odiava aquelas visões. Odiava ver pessoas mortas. E odiava magoar as pessoas a quem amava.''

O Segredo de Indie é uma leitura comovente e bem pessoal, diferente e com boa escrita, além de te prender de uma forma muito boa. O único ponto negativo, na minha opinião, é o romance ser meloso e clichê em algumas partes, afora isso recomendo a leitura, principalmente para aqueles que querem sair da sua zona de conforto. Porém esteja preparado para uma narrativa um tanto quanto previsível, como o título mesmo aponta, que tem como foco principal o segredo da protagonista e os acontecimentos que lhe cercam.

Garotas de Vidro - Laurie Halse Anderson

Foto: Psycho Reader

Autor: Laurie Halse
Editora: Novo Conceito
Ano: 2012
Páginas: 272


O que aconteceria se uma aposta, feita anos atrás, pudesse mudar totalmente a sua vida e da sua melhor amiga? Lia está doente e sua obsessão pela magreza a deixa cada vez mais confusa entre a realidade e a mentira. Mas ela perde totalmente o controle quando recebe a notícia de que sua melhor amiga, Cassie, morreu sozinha em um quarto de motel. E o pior: Cassie ligou para Lia 33 vezes antes de morrer. O que começou com uma mera aposta entre duas garotas normais para ver quem ficaria mais magra, se transforma em um jogo perigoso e obsessivo, onde duas adolescentes se tornam reféns do próprio corpo.


Nunca é o suficiente, Lia não come, se esconde facilmente atrás de todo mundo para que não chame a atenção. Depois de brigar com a mãe e ser internada em uma clínica está morando com seu pai, sua madrasta e sua meia irmã. Sua anorexia está cada vez mais grave e ela é a única a continuar negando.


"Eu sou essa garota. Eu sou o espaço entre minhas coxas, com a luz do dia brilhando por ali. Eu sou a ajudante da biblioteca que se esconde na sessão de fantasia. Eu sou o circo de aberrações envolto em cera de abelha. Eu sou os ossos que elas querem, em uma moldura de porcelana. Eu sou contagiosa."


Lia continua a tropeçar pelos dias, com fome, mas com medo de comer, assustada, mas com medo de sentir. Não há volta, ela diz, ela é assim, sempre será e ninguém a entende. Há uma linha muito tênue entre o que se deve ser feito racionalmente e o que é moralmente errado. É isso que o mundo traz, robôs vestidos de humanos, ambos obcecados pelo corpo perfeito, mesmo que isso signifique destruir a si mesmo. Na busca por si mesma, Lia precisa descobrir o que realmente importa, ou então seguirá o mesmo destino da amiga.

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, deveríamos ler esse livro. A anorexia e a auto-repugnância não são brincadeira e nunca foram. As consequências geradas por essas doenças não são caprichos, idiotices ou para chamar a atenção, como muitos dizem. Se você chega a esse ponto tentando mascarar sua aparência por fora, é porque você está morta por dentro, ou pensa estar. Essa leitura me abriu os olhos para o que pode estar acontecendo com pessoas a minha volta, pois não são transtornos incomuns, e muitas vezes são causados apenas por nos preocuparmos tanto com a beleza exterior.

Laurie é muito mais que talentosa ao abordar esse assunto; sua escrita é maravilhosa e se eu pudesse marcaria o livro inteiro. É uma leitura intoxicante e arrebatadora sobre o que significa ser você, mesmo quando a sociedade tenta te corromper. A autora aborda a dolorosa condição de jovens que sofrem de transtornos alimentares e sua complicada relação com o espelho e consigo mesmos. É uma narrativa linda, forte, e sobretudo, realista.

"Estou entrelaçando os fios de seda da minha história, tecendo o tecido do meu mundo. A pequena duende dançarina virou uma boneca de madeira cujas cordinhas eram controladas por pessoas que não estavam prestando atenção. Eu girei até ficar sem controle. Comer era difícil. Respirar era difícil. Viver era o mais difícil."

A Herdeira - Kiera Cass

Foto: Perdida na Utopia

Autor: Kiera Cass
Editora: Seguinte
Ano: 2015
Páginas: 392

A Herdeira, quarto livro da série A Seleção, correspondeu a todas as minhas expectativas. Porém, apesar de o livro se passar vinte anos após a primeira seleção e conter novos personagens, se você ainda não leu os outros livros da série, deveria ler antes de começar por este.

O livro é narrado por Eadlyn, que nasceu para ser uma líder forte e independente, mas que nunca quis viver o conto de fadas dos pais. Embora o governo de Maxon tenha simbolizado anos e anos de paz sobre o país, quando ele decreta o fim das castas, as pessoas ainda sofrem com o regime anterior e alguns rebeldes começam a se manifestar. Revoltas começam a eclodir por todos os lugares e, pela primeira vez, depois de vinte anos, a imagem da monarquia começa a ser abalada. Enquanto não descobrem uma solução para o problema, a família real precisa de uma distração para evitar que tudo saia do controle, é assim que Eadlyn se vê obrigada a participar de algo que nunca pensou que aconteceria: sua própria seleção.

A princesa, embora tenha dezoito anos, foi criada exclusivamente para ser a próxima rainha. Eadlyn é muitas vezes considerada fria e sem sentimentos pelo povo, o que eles não sabem, porém, é que ela cresceu escondendo seus verdadeiros sentimentos e sendo tudo aquilo que as outras pessoas queriam que ela fosse. Quando a seleção começa ela se vê em um impasse, pois sempre quis ser rainha, mas nunca quis um marido, pelo menos não agora e não obrigatoriamente. Com a chegada dos trinta e cinco garotos que disputarão a sua mão, ela se mostra totalmente racional, sendo incapaz de se apaixonar por qualquer um deles. Será que ela aprenderá a ser ela mesma? Será que abrirá seu coração?

"Há coisas sobre nós mesmos que só aprendemos quando deixamos alguém se aproximar de verdade."

Na maioria das vezes, quando lemos um livro ou vemos um filme a respeito de reis, rainhas e rebeldes, a maioria é narrada pelos próprios rebeldes, poucos são contados ou tem o foco na própria monarquia, o que é bem inovador neste livro. A protagonista nos ensina o que significa viver a vida inteira com um país nas costas, sabendo que deve governá-lo e esquecer até de si mesma, e principalmente como é se sentir sozinha quando o mundo inteiro parece querer algo de você. Será possível se apaixonar assim?


"Dessa vez, me senti do outro lado da cena. Fui eu que deixei de lado dever, preocupação e status para enxergar o verdadeiro coração de uma pessoa. E o dele era tão bom".

Definitivamente uma leitura majestosa, irresistível e cativante. Com esse livro Kiera me fez amá-la ainda mais; foi quase impossível parar de ler depois que eu havia começado. Mal posso esperar pela uma continuação!