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A Escolhida - Lois Lowry

Foto: Minha Vida Literária

Autor: Lois Lowry
Editora: Arqueiro
Ano: 2014
Páginas: 190
Livro 02
Kira, uma órfã de perna torta, vive em um mundo onde os fracos são deixados de lado. A partir do momento da morte de sua mãe, ela teme por seu futuro até que é perdoada pelo Conselho de Guardiões. A razão é que Kira tem um dom: seus dedos possuem a habilidade de bordar de forma extraordinária. Ela supera a habilidade de sua mãe, e lhe cabe a tarefa que nenhum outro membro da comunidade pode fazer. Enquanto seu talento a mantêm viva e traz certos privilégios, ela percebe que está rodeada de mistérios e segredos, mas ninguém deve saber sua intenção de descobrir a verdade sobre o mundo.

O livro A Escolhida, segundo volume da série O Doador de Memórias, conta a história de Kira, que sempre foi rejeitada em seu vilarejo. Nascida com uma perna torta, ela deveria ser levada para o Campo da Partida, onde todas as pessoas que tinham algum tipo de deficiência eram deixadas para morrer. Porém, sua mãe, Katrina, conseguiu salvá-la com a promessa de que a menina não seria um fardo para a comunidade. Anos depois, Kira mostra-se uma ajudante eficiente no galpão de tecelagem, conta histórias para as crianças pequenas e faz lindos bordados.

Tudo parece se encaminhar bem, até que Katrina morre de uma doença súbita e, para que outras pessoas não sejam contaminadas, o casebre das duas é queimado. Sendo rejeitada por sua comunidade depois que sua mãe morre, todos querem sua morte e até convocam um julgamento para decidir seu destino. Contudo, a vida reserva uma surpresa para a garota. No julgamento de Kira, para sua surpresa, os chefes a encarregam de uma tarefa grandiosa: a responsabilidade de continuar o trabalho da mãe, consertando os bordados de uma túnica que há séculos passa de geração em geração.

Kira fica radiante com a proposta e o aceita de bom gosto, o que ela não sabe é que existem muitos segredos por trás das profundezas do edifício e de todos os guardiões. Abrigada no centenário Edifício do Conselho, ela faz amizade com Thomas, o entalhador responsável por restaurar o cajado usado na Congregação, a maior cerimônia do vilarejo. Os dois vivem juntos em um mundo de conforto e companheirismo, mas que não demora a ser abalado. Eles começam a suspeitar que a grandiosidade de suas tarefas é apenas o disfarce para algo nefasto e, diante da realidade, não poderão ficar impassíveis. Seu pai morto, sua mãe deixada para morrer e um bebê que chora todas as noites, são uns dos grandes mistérios deste livro.

Kira é confrontada e perguntas e mais perguntas invadem sua mente: O que haverá do outro lado? Que mundo é esse que ela vive? O que eles querem de dela? Ela então precisará tomar muitas decisões e tentar mudar o rumo da sua história.

"Em meio á penumbra, ela observou o cego, o menino desertor e o cão de rabo torto se afastarem pela trilha. Quando já não podia mais vê-los, dirigiu-se ao que o futuro lhe reservava. O azul estava em sua mão e ela conseguia senti-lo palpitar, como se tivesse recebido o sopro da vida e começasse a renascer."

Em uma incrível análise de uma sociedade do futuro, Lois Lowry leva o leitor a mais uma jornada de reflexão sobre memória, criatividade e valores que aprendemos a aceitar como naturais. Em um clima quase de Idade Média, a protagonista e os personagens são bens construídos e revelam a real sagacidade da natureza humana quando posta a prova. A Escolhida é um livro extremamente audacioso e fácil de ser lido, é muito interessante e abre uma reflexão acerca do mundo construído impecavelmente por Lois Lowry.

Simplesmente amei! Vale ressaltar que os personagens do segundo livro não são os mesmos que os personagens do primeiro, embora o universo seja praticamente o mesmo, e isso foi o que me surpreendeu no início, já que não tive essa informação anterior a leitura. Confesso que estou ansiosa para o terceiro livro e espero que possa dar mais algum sentido e unir as duas histórias.

O Menino do Pijama Listrado - John Boyne

Autor: John Boyne
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2006
Páginas: 192
Bruno é um garoto alemão perspicaz e inteligente de apenas nove anos, mora em Berlim com sua mãe, pai e sua irmã Gretel, a quem ele chama de "caso perdido". Em sua cidade natal, Bruno tinha tudo de que precisava para viver bem: uma casa grande, onde explorava e brincava alegremente, amigos e um conforto típico de uma família com boas condições financeiras.

A narrativa se inicia quando ele e a família precisam se mudar às pressas devido a uma proposta de emprego irrecusável que o pai recebe, trabalho este que Bruno desconhece, apesar de sempre ouvir as pessoas se referindo a ele como comandante. Seu novo lar, ao contrário da casa de Berlim, é pequeno, isolado e desconhecido. Solitário e entendiado, o garoto começa a explorar alguns lugares da casa e arredores, até que encontra uma janela pequena no alto da parede de seu quarto, cuja vista é um lugar estranho onde as pessoas, em sua maioria homens - desde crianças a idosos -, ficam de pijamas o dia todo. Curioso, ele faz diversas perguntas aos familiares e empregados sobre a cerca que separa a casa do enorme campo. No entanto, ninguém lhe dá grandes detalhes, tudo o que ele sabe é que não deve ir ao outro lado e aquelas pessoas também não podem atravessar a cerca, o que Bruno acha muito injusto, pois do outro lado há muitas crianças que poderiam ser seus amigos.

"[…] enquanto ele observava as centenas de pessoas na distância prosseguindo com os seus assuntos, e era o fato de que todos eles – os meninos pequenos, os meninos grandes, os pais, os avôs, os tios, as pessoas que vivem sozinhas nas ruas da vida e não parecem ter parentes – usavam as mesmas roupas: um conjunto de pijama cinza e listrado com um boné cinza listrado na cabeça."

Como toda criança tomada pela curiosidade, Bruno resolve explorar mais o território, se aproximando muito da cerca e encontrando do outro lado Shmuel, um garoto cabisbaixo, faminto, sujo e cansado, que coincidentemente nasceu no mesmo dia que ele. Aos poucos eles desenvolvem uma grande amizade, mesmo com a cerca que os separa; Bruno presenteia o amigo com pão e alguns alimentos, quase todos os dias, enquanto se encontram às escondidas. 

Durante boa parte da narrativa o protagonista permanece com o desejo de ir até o campo de concentração, que inocentemente chama de "fazenda". A inocência da infância funciona como um pano de fundo para o desenrolar; Gretel, influenciada diretamente por pensamentos nazistas, começa a ter atitudes inadequadas para uma garota de sua idade, a mãe começa a discordar do trabalho do marido de chefiar o campo, e a mente de Bruno fica cada vez mais confusa e atraída para aquela realidade desconhecida.

"A infância é medida por sons, aromas e visões, antes que o tempo obscuro da razão se expanda."

Outros acontecimentos se desenrolam, tornando a narrativa ainda mais envolvente. As páginas foram passando simultaneamente, sem que eu notasse a história me prendeu do início ao fim, me impossibilitando de fazer qualquer coisa que não fosse descobrir que rumo a cumplicidade de duas crianças com realidades opostas tomaria. O autor soube dividir com êxito o foco da história, alternando entre o que acontece com os dois meninos e o que a Segunda Guerra Mundial desencadeou. O olhar crítico do autor uniu uma visão mais completa acerca da Guerra e da vida de pessoas que ficaram no meio do Holocausto com o que um coração puro e inocente pode fazer.

Apesar de o livro ser narrado em terceira pessoa, o ponto de vista de Bruno tem grande importância e impacto. Acredito que a amizade entre um judeu e um alemão de família nazista nunca mais poderá ser retratada com tanta veemência como foi feito por John Boyne, com sua narração sensível e tocante foi impossível não chorar em vários momentos. Mesmo que eu tenha lido o livro em apenas um dia, continuei fragilizada por muito tempo depois. O final é chocante, emocionante, arrasador e imprevisível. Não sei bem o que eu esperava, mas certamente não era isso, é uma trama completamente digna dos mais de 5 milhões de exemplares vendidos ao redor do mundo, e também da adaptação cinematográfica que ganhou, em 2008. Sem dúvidas, um dos meus livros favoritos por toda a vida.

Clube da Luta - Chuck Palahniuk

Autor: Chuck Palahniuk
Editora: LeYa
Ano: 2012
Páginas: 272

A obra conta a história do "narrador", um homem cujo nome não nos é revelado, apesar de os leitores o conhecerem como Jack, com uma vida solitária e vazia, que tenta preenchê-la com o consumismo desenfreado e com visitas constantes à grupos de apoio para pessoas com câncer, onde após ver as pessoas morrendo e se debulhar em lágrimas, ele consegue ir pra casa e dormir. Lá ele conhece Marla Singer, visitante dos mesmos grupos e que assim como ele não possuí doença alguma, o que o deixa completamente perturbado, de novo.

Sua vida é aparentemente uma montanha russa que só vai para baixo, até o dia em que ele conhece (que rufem os tambores) Tyler Durden, um dos melhores personagens com o qual já tive contato e que é o completo oposto de Jack: completamente inconsequente, vivendo às margens da sociedade e sob suas próprias leis. Tyler ganha a vida fabricando sabonetes caseiros e arrasta o narrador para seu mundo marginal e, se assim posso dizer, dando algum sentido para sua vida. Os dois dão início, então, ao Clube da Luta, uma reunião de homens com os instintos a flor da pele que se revezam em lutas ferozes.

De um livro cujo autor teve as mais variadas experiências com as mais variadas mentes, não se espera nada além de uma exploração profunda de seus personagens. De forma extremamente original, Chuck faz o leitor viajar loucamente pelas idéias de Jack, e nos apresenta a maneira inconsequente de Tyler ver o mundo, ainda algumas vezes sem uma lógica cronológica.

Primeira obra publicada de Chuck Palahniuk, Clube da Luta é ácido e inebriante, recheado de humor negro e pesadas críticas que nos fazem terminar a leitura com a mente perturbada e mais do que chocada com seu final completamente óbvio e ao mesmo tempo inesperado. Fica aqui, então, a minha total recomendação dessa excelente obra, assim como seu filme, que capta muito bem o cerne do livro.


"Não queira ser completo, nada de querer ser perfeito. Pare de tentar controlar tudo e deixe o barco correr."

Garotas de Vidro - Laurie Halse Anderson

Foto: Psycho Reader

Autor: Laurie Halse
Editora: Novo Conceito
Ano: 2012
Páginas: 272


O que aconteceria se uma aposta, feita anos atrás, pudesse mudar totalmente a sua vida e da sua melhor amiga? Lia está doente e sua obsessão pela magreza a deixa cada vez mais confusa entre a realidade e a mentira. Mas ela perde totalmente o controle quando recebe a notícia de que sua melhor amiga, Cassie, morreu sozinha em um quarto de motel. E o pior: Cassie ligou para Lia 33 vezes antes de morrer. O que começou com uma mera aposta entre duas garotas normais para ver quem ficaria mais magra, se transforma em um jogo perigoso e obsessivo, onde duas adolescentes se tornam reféns do próprio corpo.


Nunca é o suficiente, Lia não come, se esconde facilmente atrás de todo mundo para que não chame a atenção. Depois de brigar com a mãe e ser internada em uma clínica está morando com seu pai, sua madrasta e sua meia irmã. Sua anorexia está cada vez mais grave e ela é a única a continuar negando.


"Eu sou essa garota. Eu sou o espaço entre minhas coxas, com a luz do dia brilhando por ali. Eu sou a ajudante da biblioteca que se esconde na sessão de fantasia. Eu sou o circo de aberrações envolto em cera de abelha. Eu sou os ossos que elas querem, em uma moldura de porcelana. Eu sou contagiosa."


Lia continua a tropeçar pelos dias, com fome, mas com medo de comer, assustada, mas com medo de sentir. Não há volta, ela diz, ela é assim, sempre será e ninguém a entende. Há uma linha muito tênue entre o que se deve ser feito racionalmente e o que é moralmente errado. É isso que o mundo traz, robôs vestidos de humanos, ambos obcecados pelo corpo perfeito, mesmo que isso signifique destruir a si mesmo. Na busca por si mesma, Lia precisa descobrir o que realmente importa, ou então seguirá o mesmo destino da amiga.

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, deveríamos ler esse livro. A anorexia e a auto-repugnância não são brincadeira e nunca foram. As consequências geradas por essas doenças não são caprichos, idiotices ou para chamar a atenção, como muitos dizem. Se você chega a esse ponto tentando mascarar sua aparência por fora, é porque você está morta por dentro, ou pensa estar. Essa leitura me abriu os olhos para o que pode estar acontecendo com pessoas a minha volta, pois não são transtornos incomuns, e muitas vezes são causados apenas por nos preocuparmos tanto com a beleza exterior.

Laurie é muito mais que talentosa ao abordar esse assunto; sua escrita é maravilhosa e se eu pudesse marcaria o livro inteiro. É uma leitura intoxicante e arrebatadora sobre o que significa ser você, mesmo quando a sociedade tenta te corromper. A autora aborda a dolorosa condição de jovens que sofrem de transtornos alimentares e sua complicada relação com o espelho e consigo mesmos. É uma narrativa linda, forte, e sobretudo, realista.

"Estou entrelaçando os fios de seda da minha história, tecendo o tecido do meu mundo. A pequena duende dançarina virou uma boneca de madeira cujas cordinhas eram controladas por pessoas que não estavam prestando atenção. Eu girei até ficar sem controle. Comer era difícil. Respirar era difícil. Viver era o mais difícil."

O Doador de Memórias - Lois Lowry

Fonte da imagem

Autor: Lois Lowry
Editora: Arqueiro
Ano: 2014
Páginas: 190

Os habitantes de uma pequena comunidade, satisfeitos com a vida ordenada, pacata e estável que levam, conhecem apenas o presente – o passado e todas as lembranças do antigo mundo lhes foram apagados da mente. Um único indivíduo é encarregado de ser o guardião dessas memórias, com o objetivo de proteger o povo do sofrimento e, ao mesmo tempo, ter a sabedoria necessária para orientar os dirigentes da sociedade em momentos difíceis. Aos 12 anos, idade em que toda criança é designada à profissão que irá seguir, Jonas recebe a honra de se tornar o próximo guardião. Ele é avisado de que precisará passar por um treinamento difícil, que exigirá coragem, disciplina e muita força, mas não faz ideia de que seu mundo nunca mais será o mesmo. Orientado pelo velho doador, Jonas descobre pouco a pouco o universo extraordinário que lhe fora roubado. Como uma névoa que vai se dissipando, a terrível realidade por trás daquela utopia começa a se revelar.

Esse livro é realmente encantador, pois nos mostra de uma forma clara e dinâmica como seria o nosso mundo, o que é aparentemente perfeito no livro, sem dor, mágoa ou tristeza. O que realmente devemos parar para pensar é que em um mundo assim, onde não há sofrimento, também não há felicidade, alegria ou prazer. Não há nenhum tipo de sentimento, não há cores, é um mundo vazio, em preto e branco.


Jonas que é designado para ser o receptor de memórias, consequentemente começa a descobrir por meio das memórias do guardião o que realmente aconteceu e o que é realmente viver. Ao sentir dor, fome e alegria, ele começa a sentir como se estivesse vivendo pela primeira vez. Mas o que ele faria agora, se todos a sua volta não fazem a mínima ideia do que ele viu ou sentiu? Se os seus próprios pais não sabem o que é o amor, como ele poderia ser amado? Como poderia continuar vivendo assim depois de tudo o que sentiu? Amei esse livro e estou ansiosa pelo segundo, é lindo, maravilhoso e brilhante!