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O Vilarejo - Raphael Montes

Autor: Raphael Montes
Editora: Suma de Letras
Ano: 2015
Páginas: 96
Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome. As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.

Em 2014, Raphael Montes recebeu uma ligação do sócio de um sebo de Copacabana, que após adquirir um acervo de mais de 7 mil livros de uma senhora falecida meses antes, queria saber se o autor se gostaria de analisar o material. Com uma caligrafia fina e tinta desbotada, Elfrida Pimminstoffer escreveu em cimério, língua morta do ramo botno-úgrico. Assim, Raphael pediu que um professor traduzisse o material, mas este se recusou recomendando que ele jogasse tudo fora, pois havia algo estranho nos textos. Persistente, o autor acabou conseguindo que os estranhos textos fossem traduzidos para a nossa língua, trazendo uma coletânea de contos que o introduziram na literatura de terror.

O Vilarejo apresenta um pequeno conto para cada pecado capital, e para cada conto o nome de um demônio, como por exemplo Satan, que representa a ira, Lúcifer, a soberba, Belzebu, a gula, Asmodeus, a luxúria, Leviatã, a inveja, etc. Situadas num vilarejo desconhecido, dominado pela neve e pelo frio, as histórias retratam famílias que buscam a sobrevivência e tentam lidar com os horrendos acontecimentos causados pela guerra, que estão acabando com a sanidade dos habitantes.

Foto: Romances e Leituras
O livro relaciona os 7 pecados capitais e os príncipes do inferno, como já mencionado, com os moradores do vilarejo e os personagens principais. No entanto, os vilões destas histórias não são criaturas paranormais, monstros e similares, são idosos, crianças e chefes de família, o que desconstrói de forma incrível a visão pré-concebida que se tem do terror. Inicialmente soltos e sem relação, os contos avançam e vão se entrelaçando uns aos outros dando sentido aos acontecimentos. Trás vários personagens bem devolvidos, outros nem tanto, e um cenário muito bem descrito que conduz o leitor por uma ambientação excepcional.

Fiquei muito surpresa quando percebi que os protagonistas de um conto acabam sendo coadjuvantes em outro, e que quando protagonistas, mesmo que não narrem, só se sabe o que nos permitem saber, mas quando coadjuvantes, ficamos incrédulos com o que tais personagens foram capazes de fazer. Começa com Felika, a mulher de Anatole e mãe de três filhos; passando pelas irmãs Vália, Velma e Vonda dominadas pela inveja; indo de encontro ao Negro Caolho, que "pecou" apenas por ser diferente dos que ali já estavam; seguido pela vingativa Jekaterina e Ivan, o bravo e corajoso ferreiro, que precede uma orfã criada pela avó. E é aí que somos levados ao grande final!

Foto: Leitora Viciada
A narração é incrivelmente envolvente, interessante e surpreendente, faz com que o leitor experimente sensações muito intensas. É uma história muito bem escrita e pavorosa, que nos prende e nos deixa transtornados com a natureza humana. As ilustrações macabras derão um "quê" à mais na história, e me deixaram completamente apaixonada pela edição.